JOSÉ DE ANCHIETA (Poeta)

Chegado à colônia em 1553 com a Companhia de Jesus, o chamado Apóstolo do Brasil foi o primeiro intelectual a atuar no país: em tupi, português, espanhol e latim, ele escreveu poemas líricos, dramas, cartas sobre filologia, além de ter sido o primeiro e maior educador religioso europeu a catequizar os índios em sua própria terra natal, o que também lhe deu o título de Patrono dos Professores. Essa atividade de JOSÉ DE ANCHIETA, à época, historicamente original, resultou numa aculturação lingüística e espiritual determinante para a formação do futuro povo mestiço nacional. Se, por um lado, as forças do poder colonizador impunham uma nova representação maniqueísta ou dualista do sagrado, por outro, o cristianismo tinha de receber alguns influxos da crença tupi. O jesuíta conseguiu os resultados educacionais mais favoráveis ao objetivo almejado através de um teatro (em língua tupi) que soube se adaptar ao novo ambiente. Nesse princípio de mescla entre o pensamento colonizador e o autóctone, entre essas duas linguagens, nasce a literatura nacional, de um Barroco singularmente moldado às novas exigências do país.

OBRAS

Auto da Pregação Universal (1570); Diálogo do P.e Pero Dias Martir (1571); Na Festa de Natal ou Pregação (1577); Na Aldeia de Guapimirim (1580); Excerto do Auto de S. Sebastião (1584); Arte de Gramática da Língua Tupi (1595); Auto da Visitação de Sta. Isabel (1507); Cartas, Informações e Sermões (1933); De Beata Virgine (1940); Capitania de São Vicente (1946); De Gestis de Men de Sá (1958); Poesias (1959); Obras Completas (1985).

TRANSPONDO OCEANOS SIMBÓLICOS
“O projeto de transpor para a fala do índio a mensagem católica demandava um esforço de penetrar no imaginário do outro, e este foi o empenho do primeiro apóstolo. Na passagem de uma esfera simbólica para outra, Anchieta encontrou óbices por vezes incontornáveis. Como dizer aos tupis, por exemplo, a palavra pecado, se eles careciam até mesmo de sua noção, ao menos no registro que esta assumira ao longo da Idade Média européia? Anchieta, neste e em outros casos extremos, prefere enxertar o vocábulo português no tronco do idioma nativo.” (Alfredo Bosi, Anchieta ou as Flechas Opostas do Sagrado)

O INFATIGÁVEL
“Em breve começaram a aparecer os quilates do noviço. As sólidas humanidades que adquirira indicaram-no para a redação das cartas quadrimestrais. Fez-se professor de primeiras letras, de latim, não só de irmãos como de sacerdotes, do padre Manuel de Paiva, por exemplo, superior da missão. Para suprir a falta de livros de ensino perdia parte da noite a trasladá-los. Fazia peças manuais próprias ao escambo com os vizinhos que ajudaram a minguar a fome. Sua atividade física e sua atividade intelectual não conheciam fadiga.” (J. Capistrano de Abreu, Ensaios e Estudos)

Extrato da obra Carta ao Geral Diogo Lainez, de São Vicente, a 16 de abril de 1563

Falamos-lhe que o queríamos batizar para que sua alma não se perdesse, mas que por então não podíamos ensinar-lhe o que era necessário por falta de tempo, e que estivesse preparado para quando voltássemos. Folgou ele tanto com esta notícia, como vinda do Céu, e teve-a tanto em memória, que agora quando viemos e lhe perguntamos se queria ser Cristão, respondeu com muita alegria que sim, e que já desde então o estava esperando [...] O que se lhe imprimiu foi o mistério da Ressurreição, que ele repetia muitas vezes dizendo: “Deus verdadeiro é Jesus, que saiu da sepultura e subiu ao Céu, e depois há de vir, muito irado, a queimar todas as cousas” [...] Chegando à porta da igreja o assentamos em uma cadeira onde estavam já seus padrinhos com outros cristãos a esperá-lo. Aí lhe tornei a dizer que dissesse diante de todos o que queria; e ele respondeu com grande fervor que queria ser batizado, e que toda aquela noite estivera pensando na ira de Deus, que havia de ter para queimar todo o mundo, e destruir todas as cousas, e de como havíamos de ressuscitar todos.

São Gonçalo Online, São Gonçalo mais feliz!!!