FRANKLIN TÁVORA (Poeta)

Na segunda metade do século XIX, FRANKLIN TÁVORA sabe aproveitar-se da crise do Romantismo, inaugurando, na literatura e no pensamento brasileiros, novos caminhos em direção ao Realismo e ao Naturalismo. Cumprindo esse movimento, ele encontra as contradições de quem vive uma época de transição. Por um lado, privilegiando uma observação direta da realidade, ele abdica do privilégio da sonhadora imaginação romântica para o processo criador. Nesse sentido, ele incorpora a técnica cientificista como propiciadora de novas conquistas para a manifestação das percepções do mundo e sonhará com uma sociedade industrializada que venha transformar a natureza tão celebrada pelos românticos em uma onda progressista de novas tecnologias. Por outro lado, ele será o primeiro a dar voz teórica e prática a um regionalismo que vê no Norte do país, supostamente mais puro do que o Sul e o Sudeste, a possibilidade de alcançar uma literatura eminentemente nacional. Com essa vidência, ele inaugura, precocemente, um movimento que, com Gilberto Freyre e muitos autores da geração de 30, terá toda a sua força.

OBRAS

A Trindade Maldita (1861); Um Mistério de Família (1861); Os Índios do Jaguaribe (1862); A Casa de Palha (1866); Um Casamento no Arrabalde (1869); Três Lágrimas (1870); Cartas de Semprônio a Cincinato (1871); O Cabeleira (1876); O Matuto (1878); Lourenço (1878); Lendas e Tradições do Norte (1878); Sacrifício (1879).


UM REGIONALISTA AVANT LA LETTRE
"O Cabeleira iniciou o regionalismo no Brasil. No afã de lançar a 'literatura do Norte', Franklin Távora fez emergir o Norte, com sua paisagem, seu linguajar, seu povo, seu status quo." (Samira Youssef Campedelli, Herói do Mal)

O PRIMEIRO MANIFESTO REGIONALISTA
"O teorizador Franklin Távora volta a nos dar outro texto básico quando, publicando em 1876 O Cabeleira, inclui nele um prefácio que pode ser considerado o primeiro manifesto regionalista da literatura brasileira." (José Maurício Gomes de Almeida, A Tradição Regionalista no Romance Brasileiro)

Extrato da obra O Cabeleira

— Que não seria deste mundo — pensei eu, descendo das eminências da contemplação às planícies do positivismo —, se nestas margens se sentassem cidades; se a agricultura liberalizasse nestas planícies os seus tesouros; se as fábricas enchessem os ares com seu fumo, e neles repercutisse o ruído de suas máquinas? Desta beleza, ora a modo de estática, ora violenta, que fontes de renda não havia de rebentar? Mobilizados os capitais e o crédito; animados os mercados agrícolas, industriais, artísticos, veríamos aqui a cada passo uma Manchester ou uma Nova York. A praça, o armazém, o entreposto ocupariam a margem, hoje nua e solitária, o cômoro sem vida e sem promessa; o arado percorreria a região que de presente pertence à floresta escura. O estado natural, espancado pelas correntes de imigração espontânea que lhe viessem disputar os domínios improdutivos para os converter em magníficos empórios, ter-se-ia ido refugiar nos sertões remotos donde em breve seria novamente desalojado. Uma face nova teria vindo suceder ao brilhante e majestoso painel da virgem natureza. Não se mostrariam mais aqui as tendas negras da fome e da nudez. O trabalho, o capital, a economia, a fartura, a riqueza, agentes indispensáveis da civilização e grandeza dos povos, teriam lugar eminente nesta imensidade onde vemos unicamente águas, ilhas, planícies, seringais sem-fim.

 

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