CASIMIRO DE ABREU (Poeta)

Uma das características mais marcantes da arte a partir do século XX é sua abertura àquilo que, anteriormente, não era reconhecidamente artístico. Nessa mestiçagem, tornando-se alguém que pode privilegiar qualquer assunto como motivação de seu fazer, o poeta abre mão dos temas românticos e assume para si a perda de sua aura. Apesar disso, não foi sempre assim. O mundo já se dividira em pessoas de ação e sonhadores extravagantes — os poetas —, que possuíam um certo repertório de temas a ser cantado. Tendo morrido aos 23 anos, CASIMIRO DE ABREU, aliando espontaneidade lingüística, despretensão formal e valorização do sentimento, tornou-se um dos poetas mais lidos do Brasil, talvez justamente por ser o ponto de convergência de inúmeros topos reconhecidamente poéticos (a saudade, o amor, a tristeza, os desejos...), filtrados por uma graciosidade toda própria. É, no mínimo, curioso que aos 20 anos de idade alguém já se sinta melancólico pela perda da minha infância querida/ que os anos não trazem mais... Mas como não se curvar diante desse embalo vivenciado, em algum momento da vida, por quase todas as pessoas?

OBRAS

Camões e o Jaú (1856); As Primaveras (1859); Obras Completas (1940); Poesias Completas (1948); Obras de C. A. (1999).

ÍNTIMA, PESSOAL E A MAIS LIDA DO BRASIL

“Bem diferente foi o destino literário de Casimiro de Abreu; não houve jamais entre nós poeta mais lido. [...] A poesia aqui é tão íntima, tão pessoal, que dizer mal dela equivaleria a dizer mal do carácter do poeta; e quem seria capaz de deixar de amar um tão delicado e sincero companheiro?” (Sílvio Romero, História da Literatura Brasileira)

A TERNURA DA ALMA HUMANA

“Casimiro de Abreu acaba de publicar as suas Primaveras. Cumpre ser moço, na verdade, para no meio da indiferença que enregela a sociedade, no meio do borborinho metálico que soa a todos os ouvidos, levantar a voz sonora e dizer a essa sociedade egoísta – Atendei-me! – vou cantar os segredos de ternura da alma humana; vou expor-vos na língua a mais doce e harmoniosa os sentimentos que estão nos vossos, como estão em todos os corações, mas de que tão acuradamente vos distrais.” (Justiniano Rocha, Juízo Crítico)

Extrato da obra Meus Oito Anos

Oh! que saudades que tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida,/ Que os anos não trazem mais!/ Que amor, que sonhos, que flores,/ Naquelas tardes fagueiras/ À sombra das bananeiras,/ Debaixo dos laranjais!// Como são belos os dias/ Do despontar da existência!/ — Respira a alma inocência/ Como perfumes a flor;/ O mar — é lago sereno,/ O céu — um manto azulado,/ O mundo — um sonho dourado,/ A vida — um hino d'amor!// Que auroras, que sol, que vida,/ Que noites de melodia,/ Naquela doce alegria,/ Naquele ingênuo folgar!/ O céu bordado d'estrelas,/ A terra de aromas cheia,/ As ondas beijando a areia/ E a lua beijando o mar!// Oh! dias da minha infância!/ Oh! meu céu de primavera!/ Que doce a vida não era/ Nessa risonha manhã!/ Em vez das mágoas de agora/ Eu tinha nessas delícias/ De minha mãe as carícias/ E beijos de minha irmã!// Livre filho das montanhas,/ Eu ia bem satisfeito,/ Da camisa aberto o peito/ — Pés descalços, braços nus —/ Correndo pelas campinas/ À roda das cachoeiras,/ Atrás das asas ligeiras/ Das borboletas azuis!// Naqueles tempos ditosos/ Ia colher as pitangas,/ Trepava a tirar as mangas,/ Brincava à beira do mar;/ Rezava as Ave-Marias,/ Achava o céu sempre lindo,/ Adormecia sorrindo/ E despertava a cantar!

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